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domingo, 6 de janeiro de 2008

CULTURA AFRO-BRASILEIRA


6/1/2008
Pano acolhedor

Roupas funcionaram como instrumento de preservação da identidade para negros das diversas nações e religiões que chegaram ao Brasil




Começa através das mãos da mãe, da avó ou da madrinha de um recém-nascido o primeiro ritual pelo qual passa uma criança nos terreiros de matriz africana. São elas que tecem ou encomendam um tecido que terá significado especial por toda a existência do descendente e mesmo após sua passagem pela terra. Dezesseis dias depois de nascer, a mão materna envolve o bebê no pano da costa especialmente lavado, incensado e perfumado para a ocasião. É assim que tem início o ikomojadê, cerimônia que apresenta, pela primeira vez, um novo filho ou filha às divindades reverenciadas no candomblé.
É sobre esse tecido que a criança fica deitada, enquanto o líder religioso da casa profere palavras sagradas de prosperidade ao recém-nascido. O grupo faz saudações especiais diante de Xangô, Dadá, Oxum e Iemanjá. Depois, derrama um pouco da água da quartinha na cabeça da criança. Em alguns locais, nesse momento é escolhido um nome em iorubá para o bebê. “É uma comemoração à vida, ao nascimento. Você só pede coisas boas para aquele bebê. Esse tecido branco vai acompanhá-lo para sempre”, explica e egbomi Cici, do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju e pesquisadora da Fundação Pierre Verger.
Guardado pela família, o tecido do Ikomojadê estará ao lado da criança até o dia em que, jovem ou adulta, se despeça da vida. Ainda que o ritual tenha variações – em algumas casas, ocorre no nono dia –, ele revela pistas da importância da indumentária para a cultura negro-africana transportada pelo processo forçado da diáspora.
Um pedaço de pano pode simbolizar a sobrevivência de toda uma identidade e conservar detalhes fundamentais de uma cultura. É possível perceber as diferenças entre o povo de nação jeje, angola e iorubá apenas pela maneira de amarrar o torço na cabeça, só para citar um exemplo. O simples gesto de prender os cabelos num turbante, herança que sobrevive através das vestes das baianas de acarajé, preserva a riqueza de um hábito iniciado do outro lado do mar.
E não foram apenas os escravos seguidores da religião de raiz africana que reafirmaram a identidade através da forma de se vestir. Os negros muçulmanos eram tão reconhecidos por suas roupas nas ruas da velha Salvador que, graças a elas, foi possível constatar o papel central desempenhado pelos malês na rebelião de 1835. “Os rebeldes – ou uma boa parte deles – foram para as ruas com roupas usadas na Bahia pelos adeptos do islamismo. No corpo de muitos dos que morreram, a polícia encontrou amuletos muçulmanos e papéis com rezas e passagens do Qur’an usados para proteção. Essas e outras marcas da revolta levaram o chefe da polícia Francisco Gonçalves Martins a concluir o óbvio: ‘o certo’, escreveu ele, ‘é que a religião tinha sua parte na sublevação’”, descreve o pesquisador João José Reis em Rebelião Escrava no Brasil.
Vestir-se bem é questão de honra entre os africanos e seus descendentes. Seja para homenagear uma divindade ou para mostrar prosperidade, é preciso estar elegante. Elegância não necessariamente à européia, apesar de alguns itens do vestuário nagô terem, sim, influência nas volumosas anáguas e rendas da Corte. O charme de um traje africano está na combinação de cores fortes ou no branco soberano. Está no jeito de amarrar, sem dar um único nó, um tecido na cintura, e ele não cair nem com o mais rápido dos movimentos. Está na escolha de acessórios que, quanto mais tribais, mais contemporâneos parecem. Não é sem razão que os ícones da moda resgatam, cada vez com maior freqüência, as influências étnicas. Estampas, balangandãs, colares, brincos e pulseiras têm espaço hoje até mesmo nas mais badaladas vitrines.
O segredo de seu uso, entretanto, é guardado para poucos. É preciso ter a personalidade de quem não se curva diante das adversidades para exibir sobre o corpo, com elegância, cada uma dessas peças. A pele negra reluzente ajuda, mas não é só isso. Há uma sutileza no caminhar, no jeito de se sentar e até no modo de encarar alguém. Quem se entrega, de corpo e alma, à história preservada em uma roupa, esse sim, ganha porte de rei ou rainha.
Partido-alto
De tão bem vestidas, as negras da irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte arrancaram aplausos entusiasmados de milhares de pessoas no desfile do 4º centenário de Salvador, em 1949. Impressionado com os torços, saias rendadas, cordões e brincos de ouro, Odorico Tavares classificou a passagem desse grupo de “pretas baianas, de idade avançada, caminhando serena e nobremente, como se fossem autênticas rainhas” como o maior momento do cortejo.
Roupa é assunto tão sério que o termo “mulher de saia”, na década de 30, designava um grupo de baixo poder aquisitivo, que se opunha às mulheres de vestido. Talvez como vingança às más línguas que apontavam com desdém e pena as mulheres que precisavam trabalhar, aquelas que se destacavam no ramo respondiam com luxo às críticas. Comerciantes de sucesso, desbravaram mercados, cozinharam, lavaram, costuraram e muitas juntaram dinheiro suficiente para comprar boas roupas e jóias de ouro reluzente. Surgiam, assim, as famosas negras do partido-alto. A roupa usada por elas nos dias de festa, o traje de crioula, deu origem ao vestuário da baiana de acarajé.
Da rua e das irmandades para o interior dos terreiros, o cuidado com a forma de se vestir é o mesmo. Agradar ao orixá, inquice ou vodum, nomes diferentes para as mesmas forças da natureza nas nações de origem ketu, angola ou jeje, respectivamente, é sem dúvida uma de suas principais razões. No candomblé, a divindade traz a energia fundamental, o axé, através do corpo do iniciado. Para recebê-lo, há trajes com cores e peças específicas, além de acessórios como ferramentas e fios de contas. Juntos, eles narram a história de cada entidade. Ajudam a contar, através dos movimentos da dança, os atos heróicos e exemplares do orixá.
“A roupa é a expressão mais sofisticada de uma religião que trabalha com o elemento estético como determinante”, afirma o historiador Jaime Sodré. A indumentária em um terreiro é tão organizada que expressa, inclusive, os graus hierárquicos de seus filhos. Só os mais antigos devem usar os trajes mais paramentados, cheios de fitas e bordados. É uma forma de reverenciar a sabedoria dos mais velhos.
Se os antigos filhos de orixá aprendiam a confeccionar suas próprias roupas no período de iniciação religiosa, hoje essa tradição corre o risco de se perder. Alguns terreiros têm promovido oficinas para transmitir às novas gerações o legado artístico de seus antepassados. O poder dessa alta costura de origem africana é tão forte que há muito ultrapassou a porteira dos terreiros. Reflexos dessa influência podem ser percebidos pelas ruas da cidade. “Basta olharmos a quantidade de pessoas vestidas de branco na sexta-feira, dia de Oxalá, e os homens e mulheres de vermelho na quarta, dia de Xangô e Iansã”, descreve Jaime Sodré. Mesmo sem ligação com a religiosidade, o simples hábito de adotar, no cotidiano, elementos de inspiração afro-brasileira revela que, mais do que uma forma de cobrir o corpo, a indumentária tem a capacidade de preservar parte importante da identidade e da cultura de um povo.
Fonte: Jornal Correio da Bahia
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